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  • Milca Ribeiro

Mindfulness em tempos de incerteza

Tão assustador quanto o vírus é a incerteza que ele está causando. Nesse cenário, a prática de Mindfulness me parece essencial.

Mais do que nunca é preciso encarar o momento presente exatamente como ele é, sem se perder em pensamentos de como você gostaria que ele fosse, sem lamentar por tudo o que está perdendo ou deveria estar fazendo.

Viver o momento plenamente como é quer dizer aceitar a realidade e lidar com ela com a mente clara e o coração aberto. É parar de lutar contra ou resistir, o que só intensifica o seu próprio sofrimento e potencializa ações e decisões impulsivas baseadas em medo. É entender as limitações e as restrições não só do vírus, mas também das pessoas. Somos humanos, temos medos, inseguranças, pensamos de forma diferente, mas também podemos ter empatia, esperança e seremos mais colaborativos.

No fundo sabemos, mesmo que inconscientemente que não sobreviveremos sozinhos, que o isolamento é necessário, mas o julgamento, o preconceito e a agressividade não. É preciso lembrar que o isolamento será momentâneo não definitivo, e mesmo em isolamento podemos seguir juntos, usando o que temos de melhor: nossa mente criativa, nossa habilidade única de encontrar saídas, resolver problemas, superar obstáculos. Tudo depende do grau de presença e consciência de cada um. O movimento tem que ser de dentro para fora, sempre.

A atenção plena as vezes é entendida como como um mero exercício de foco ou uma forma simples de relaxar. Mas a atenção plena é muito mais importante e transformadora se usada em momentos de dificuldade.


Mindfulness e a consciência do Medo


Se não estivermos conscientes do nosso medo, ele nos dominará. Ler manchetes ou assistir a notícias alarmantes sobre o corona vírus por exemplo, aciona automaticamente nosso sistema nervoso de proteção e muito facilmente esse mero instinto pode virar um pânico coletivo.

Com a observação atenta das sensações do corpo podemos perceber este sistema sendo instalado: provavelmente o coração vai acelerar, a respiração ficará curta, o peito apertado, suor, e uma certa confusão mental, fica difícil raciocinar com clareza. Quanto antes pudermos perceber estes sinais, mais fácil fica de nos acalmarmos. A tomada de consciência é a base da mudança.

Quando sentir o medo se instalando no seu corpo faça alguns ciclos de respiração profunda, repita mentalmente frase como: eu reconheço o meu medo, a minha insegurança agora, mas eu sei que vai ficar tudo bem, tudo isso é passageiro, vamos superar. Assim, respirando, acolhendo as nossas emoções momento a momento talvez possamos perceber se as notícias da TV nos convidam realmente para uma resposta sábia como renunciar a uma reunião desnecessária ou se estão simplesmente provocando pânico, instigando-nos a fazer uma fila nos supermercados para estocar papel higiênico.

Sempre que o medo surge, desencadeado por um vírus ou não, podemos parar e investigá-lo. Podemos aprender a vê-lo não como um sentimento estático ou permanente, mas como uma experiência passageira, em contínuo movimento como são as sensações, os pensamentos e as imagens mentais.

Ao fazer isso, podemos entender mais profundamente como sentimos e processamos o medo. Um passo profundo para o autoconhecimento. Podemos por exemplo, ouvir a velocidade e o conteúdo de nossa conversa mental e refletir o quanto realmente cada pensamento é relevante ou não no momento presente. Podemos ver as imagens aparecerem na nossa tela mental mais claramente, podendo analisar toda a história projetada. Lembre-se, pensamentos não são fatos, são meras especulações mentais!

Quando o medo é conscientemente quebrado dessa maneira, ele pode até guiar sabiamente nossos próximos passos. Ao nos permitirmos sentir o desconforto da incerteza geramos novas perspectivas. Criamos a flexibilidade mental para sermos capazes de considerar outras opções, um verdadeiro oásis de segurança em meio à tanta incerteza.


Mindfulness e o Corona vírus


Podemos também usar as técnicas de Mindfulness de forma bem pragmática e pontual.

Podemos notar, por exemplo, com que frequência tocamos nosso rosto, algo que fazemos automaticamente centenas de vezes por dia e infelizmente uma das maneiras mais fáceis de contrair o vírus. Podemos praticar não tocar nosso rosto, criar o hábito de manter a mente conectada com o corpo, prestando atenção aos seus movimentos, as sensações internas, cultivando a atenção plena em todas as suas tarefas.

Também podemos não só lavar as mãos com mais frequência, mas aproveitar para observar as sensações da água morna e do sabão escorregadio, talvez buscar uma sensação de conforto, de prazer, de proteção e cuidado para este ato, ao invés de torná-lo mais uma simples paranoia automática.

Em vez de apertar as mãos um do outro, podemos finalmente aproveitar para nos olharmos com mais sinceridade, cumprimentar com um olhar carinhoso, com um sorriso amigável, desejando saúde, segurança e paz para todos.

Podemos encarar a quarentena em casa como um castigo, uma perda de tempo ou uma oportunidade de aprendizado, de autoconhecimento. Talvez seja hora de se reinventar, de aprender novas habilidades, ou de se permitir ou aprender a simplesmente relaxar, sem culpa, aproveitar o tempo extra para rever seus hábitos, seus sonhos, seu propósito.

De várias maneiras, essa pandemia tem nos mostrado o quanto realmente somos interdependentes e que apesar do isolamento necessário, é preciso reconhecer e reforçar essa interconexão, mas precisamos também prestar atenção aos preconceitos, julgamentos e condenações que surgem quase que espontaneamente do medo e que só servem para nos distanciarmos ainda mais.

Praticar a atenção plena neste momento não é apenas uma maneira de cuidar de nós mesmos, mas uma maneira de cuidar de todos ao nosso redor.

Mantenha-se plenamente consciente, contamine o mundo com a sua empatia, com a sua inteligência, busque soluções e não problemas, afinal, somos todos um.

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